SOBRE O COMÉRCIO DE ANIMAIS SILVESTRES
Sérgio Greif
Uma loja de animais em um bairro de classe média-alta, além dos costumeiros
cãezinhos, gatinhos e hamsters, comercializa também outros animais como tartarugas,
cobras, iguanas, papagaios e outras aves nativas, sagüís e outros animais silvestres.
Esta comercialização se reveste de uma atmosfera ecológica, quando o comerciante nos
garante que todos os animais ali comercializados estão licenciados no IBAMA e que a loja
está fazendo seu papel em defesa da natureza. A argumentação é de que ao comprar da
loja, as pessoas deixam de comprar animais de traficantes da vida silvestre, que
capturam animais na natureza com índice de mortalidade de 90% .
Acreditemos que todos os animais em um Pet Shop provenham de criadouros licenciados
pelo IBAMA. Acreditemos que o IBAMA faz seu serviço, e que cada animal ali
comercializado de fato tem um registro, um chip intradérmico ou uma anilha na pata. A
pergunta que resta é o que será feito destes animais após a comercialização para
o 'consumidor' final. Antes de responder a esta pergunta, precisamos entender de que
maneira estes animais chegaram ao criadouro e então ao Pet Shop?
Animais silvestres chegam ao IBAMA apreendidos de traficantes, recuperados de
residências que os mantinham irregularmente ou simplesmente abandonados. O IBAMA
não pode simplesmente destinar estes animais de volta à natureza, pois muitos destes
foram retirados das matas ainda filhotes e não saberiam como sobreviver em suas áreas
nativas. Além disto, a origem certa de cada animal não pode ser estabelecida e introduzir
um animal em uma população que não é a sua original pode interferir nos padrões
genéticos desta população. Some-se a isto o fato de que muitos dos animais criados em
convivência com o homem e outros animais domésticos podem possuir doenças
assintomáticas que poderão passar para a população nativa caso estes animais sejam
reintroduzidos.
Desta maneira, o IBAMA destina os animais para zoológicos, centros de pesquisa e
criadouros licenciados. Por determinação, o animal encaminhado para um criadouro não
pode ser comercializado, só podendo servir como matriz reprodutora. Os filhotes
nascidos em criadouros comerciais podem ser comercializados. Eles são registrados,
marcados e podem ser comercializados para Pet Shops. Sabemos, porém, que muitos
criadouros comercializam os animais que recebem como se fossem animais ali nascidos,
procedendo desta forma uma 'lavagem' de animais contrabandeados.
Nos Pet Shops os animais permanecem em gaiolas aguardando que alguém se interesse
por eles. Entenda-se por interesse possuir o dinheiro suficiente para adquiri-lo, porque
essa é a única barreira que separa o proprietário de sua mercadoria. Não há nenhum
questionamento sobre o que será feito do animal, se ele será mantido em condições
minimamente suportáveis, etc. Por determinação do Art. 13, § 2º da Portaria nº 117/97
do IBAMA, sobre Compra e Venda de Animais Silvestres “O criadouro, comerciante ou
importador deverá fornecer aos compradores de animais de estimação um texto com
orientações básicas sobre a biologia da espécie (alimentação, fornecimento de água,
abrigo, exercício, repouso, possíveis doenças, aspectos sanitários das instalações,
cuidados de trato e manejo) e sobretudo, a recomendação da não soltura ou devolução
dos animais à natureza, sem o prévio consentimento da área técnica do IBAMA.”
Mas por pior que seja a existência dessa cartilha, será que alguém de fato a segue? E
será que os assuntos contemplados na cartilha são suficientes para estabelecer
parâmetros para compra de animais? Animais como as araras e papagaios são
gregários, ou seja, gostam de viver em sociedades. Um casal destes animais estabelece
vínculos afetivos pela vida toda. Será que ao ir a uma loja adquirir um papagaio de,
digamos, R$1.000,00, o comerciante condicionará a compra a aquisição de pelo menos
um casal? Ele deixará de vender a um comprador que só queira levar uma arara?
Tartarugas e jabutis são animais bastante longevos. A compra de um animal destes
representa um compromisso com a vida deste animais por pelo menos 70 anos. Será
que o comerciante questionará o comprador com relação à sua responsabilidade, ou
simplesmente pegará os R$ 400,00 e entregará o jabuti?
A popularização da venda de animais silvestres e exóticos criou uma febre de aquisição
impulsiva de exemplares que meses após, “perdem a graça”. Uma tartaruga-de-orelha-
vermelha, uma tarântula ou uma cobra d´água são animais interessantes por tempo
muito curto. Um ferret (furão) que no começo parecia uma boa alternativa ao cão no
apartamento logo se revela um animal carente e de cheiro desagradável.
Logo estes animais são esquecidos em um aquário ou em uma gaiola, negligenciados em
favor de um novo animal ou um videogame. A atenção, alimentação adequada e os
exercícios passam a ser negligenciados. O animal é esquecido. Nos piores casos estes
animais são soltos em fragmentos de matas ou em praças públicas. Nestas condições,
suas chances de sobrevivências são nulas, pois além de já haver sido domesticado, estes
ambientes não fornecem condições mínimas de sobrevivência.
O tráfico de animais é um problema sério. Para se pegar um filhote de macaco com
freqüência a mãe deve ser morta. Macacos são vendidos sem garras e sem dentes para
parecerem mansos. Papagaios são vendidos embriagados, pelo mesmo motivo. De cada
10 animais capturados, 9 morrem antes de serem comercializados. Traficantes de
animais são bandidos e devem ser tratados como tal, mas não acreditemos que a
comercialização legalizada de animais seja a solução.
Em primeiro lugar, animais adquiridos de contrabandistas custam muito menos do que
animais adquiridos de Pet Shops. Uma pessoa que deseje adquirir um animal silvestre e
saiba como fazê-lo de um contrabandista jamais pagará mais apenas para ter uma
autorização do IBAMA. Portanto, os Pet Shops não inibem o tráfico de animais, eles
apenas se beneficiam dele, visto que o tráfico abastece os criadouros, que abastece as
lojas de animais.
Devemos ver um Pet Shop como um grande inimigo dos animais. Certamente uma
tartaruga não deve viver em um aquário, nem um papagaio em uma gaiola. É até
ofensivo vermos que pessoas que adquirem animais nestes lugares se julguem
protetores ou ecologistas. Quando compramos um bem, quando lhe imputamos algum
valor, este objeto passa a valer aquilo que pagamos por ele.
Uma chinchila que pode ser comprada por R$ 40,00 vale R$ 40,00. Quando um
comprador paga R$ 5,00 por um ratinho em uma loja, não importa para o comerciante
se este rato será um animal de estimação ou o alimento de algum outro animal de
estimação, como uma cobra. O comerciante de animais não é amigo dos animais, ele é
um comerciante que visa o lucro. Da mesma forma, a pessoa que adquire um animal
nestas lojas não ama estes animais. Se os amasse reconheceria que seu lugar não é em
uma casa ou um apartamento, por melhor que sejam as condições que lhe dermos.
Apenas se engana quem quer.
Animais não foram feitos para distraírem crianças ou burgueses afetados, eles são seres
sencientes e como tais devem ser considerados.
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Sérgio Greif é biólogo em São Paulo/SP, mestre em Alimentos e Nutrição, autor dos
livro ' A Verdadeira Face da Experimentação Animal: A sua saúde em perigo'
e 'Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação: pela ciência responsável'
Texto extraído do site: SENTIENS DEFESA ANIMAL
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