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14/10/2007 - 19:44:59 - Animais e Ciência
Postado por: Clarice
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ANIMAIS X CIENTIFICISMO

Laerte Fernando Levai
Thales Tréz
Sheila Moura

Pesquisadores brasileiros, com a afirmação de que o uso de animais é imprescindível
para a produção de novas substâncias, medicamentos e técnicas de pesquisa, parecem
desacreditar na capacidade da ciência em vencer novos desafios. O argumento
cientificista parece fazer uma leitura conveniente e parcial da história, defendendo
equivocadamente que os resultados da experimentação animal são confiáveis ao
homem.

Por que nossos cientistas gabam-se do aumento do número de mestres e doutores aqui
formados a cada ano, enquanto omitem que o governo paga R$ 3.300,00 mensais para
mantê-los no país? Em termos de estatísticas da chamada produção científica, vale dizer,
não se deve confundir qualidade com quantidade.

A classe acadêmica procura manter sua tradição e status, mesmo que para isso tenha de
se referir aos avanços em números, não em relevância científica. É um engano, porém,
acreditar que a experimentação em animais tem resultados mágicos (fruto de um
pensamento científico canônico) e que pode salvar vidas. Ratos, cães, macacos e outros,
decididamente, não são seres humanos.

Ademais, da forma como vem sendo realizada na maioria dos laboratórios, centros de
pesquisa ou estabelecimentos de ensino, a experimentação animal é uma atividade
imersa na ideologia científica dominante (sem compromisso com novos valores
emergentes), na qual os animais - tidos como objetos de estudo ou peças descartáveis -
são tratados como se fossem criaturas eticamente neutras. Sob a justificativa de buscar
o progresso da ciência, o pesquisador prende, fere, quebra, escalpela, penetra, queima,
secciona, mutila e mata, perfazendo um autêntico massacre consentido. Isso tudo apesar
da conhecida existência de recursos alternativos que a maioria dos vivisseccionistas nem
quer ouvir falar e do dispositivo constitucional que veda a submissão de animais a
crueldades.

Quanto ao PL 1154/95 (do então deputado Sérgio Arouca), que tramita há 12 anos em
Brasília, seu texto é retrógrado e não tem o apoio das sociedades de proteção animal,
tampouco da sociedade civil. Já o PL paralelo apresentado em 2003 pela deputada Iara
Bernardi e injustamente rejeitado pela Comissão de Constituição e Justiça, tratava da
experimentação animal de maneira bem superior, priorizando o uso de recursos
substitutivos, garantindo a objeção de consciência e, ainda, vedando os experimentos
repetidos cujos resultados são conhecidos do cientista.

Eventual aprovação do PL Sérgio Arouca não seria um passo derradeiro, nem sequer um
avanço para a ciência. Basta lembrar que o legislador ambiental tornou crime a
experimentação didático-científica em animais, quando não aplicados os recursos
substitutivos existentes. Esta restrição legal contraria interesses econômicos
movimentados pelas poderosas indústrias médica, cosmética e farmacêutica, além de
causar preocupação àqueles que utilizam animais em pesquisas.

As informações hoje existentes sobre os índices de crueldade para com os animais
submetidos à experimentação animal, bem como ao reconhecimento de que o uso animal
em pesquisas é um erro metodológico capaz de prejudicar o próprio homem, levaram
conceituados profissionais, sobretudo dos países desenvolvidos, a uma necessária
mudança de paradigma, abolindo de vez a vivissecção. O que falta à classe de
pesquisadores brasileiros, porém, é a ousadia de olhar pra frente, acreditar que é
possível conciliar ética à atividade científica.

--

Laerte Fernando Levai é promotor de justiça em São José dos Campos/SP e autor do
livro 'Direito dos Animais'
Thales Tréz é biólogo e professor da Universidade Federal de Alfenas/MG, autor do
livro "A Verdadeira Face da Experimentação Animal", representante da Interniche no
Brasil.
Sheila Moura é doutora em Serviço Social, presidente-fundadora da Sociedade
Educacional "Fala Bicho" (1993) e ativista na proteção animal desde 1972. Produziu
trabalhos pioneiros no país, como o Manual do Fala Bicho, o convênio com prefeitura
para castração gratuita, a idealização, produção e publicação do primeiro livro brasileiro
sobre experimentação animal (A Verdadeira Face da Experimentação Animal),
programas de rádio, entre outros. Tem vinte e um artigos e inúmeras denúncias
publicados na imprensa desde 1987, sobre os mais diversos temas ligados à defesa dos
animais. É apresentadora do quadro "Fala Bicho" no Programa Francisco Barbosa, na
Rádio Tupi do Rio de Janeiro

Texto extraído do site: SENTIENS DEFESA ANIMAL