Matérias Anteriores
22/07/2009 - 22:31:31 - MEDICINA DA UFRGS ENSINA SEM USAR ANIMAIS
Postado por: Clarice
Fechar  
  
 
15/07/2009
InfoSentiens - Medicina da UFRGS ensina sem usar animais‏
Medicina da UFRGS ensina sem usar animais
________________________________________

Passados dois anos desde que o sacrifício de animais foi
abolido no curso, professores e alunos estão muito
satisfeitos. Conflito ético foi o principal motivo para a
troca por modelos artificiais nas aulas práticas.


Médico e professor Geraldo Sidiomar Duarte mostra
tórax artificial que substitui uso de animais

Por Ulisses A. Nenê

O caozinho é trazido do canil e chega faceiro; caminha até o
grupo de alunos de medicina e lambe as pernas de um deles. O
clima na sala fica pesado e ninguém quer anestesiar e cortar
o bichinho. Alguns estudantes, constrangidos, ameaçam ir
embora. Cenas como esta ou parecidas aconteceram por diversas
vezes, nos muitos anos em que animais foram usados nas aulas
práticas da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (Famed/Ufrgs).

Era assim, anestesiando, cortando e costurando animais vivos
(vivissecação), depois sacrificados, que os futuros médicos
aprendiam as técnicas operatórias e outros conteúdos. Mas
isto mudou em abril de 2007, quando a Famed tornou-se a
primeira faculdade de medicina do Brasil a abolir totalmente
o uso de animais no ensino de graduação, no que foi seguida
logo depois pela Faculdade de Medicina do ABC (SP).

Não estamos falando de uma instituição qualquer: fundada há
111 anos, a Famed é considerada a melhor faculdade de
medicina do país, tendo conquistado o primeiro lugar no Exame
Nacional de Desempenho Estudantil de 2008 (Enade). O conflito
ético foi o principal motivo para que o curso abandonasse a
vivissecação, adotando o emprego de modelos anatômicos
artificiais que imitam órgãos e tecidos humanos.

Aprovação dos alunos

Passados dois anos, a medida tem a total aprovação de alunos
e professores, que garantem não haver nenhum prejuízo para o
aprendizado médico. Aluna do quarto semestre, Sabrina de
Noronha, 22 anos, diz que sequer pensava que pudesse haver a
utilização de animais quando ingressou na medicina. Ela já
cursou disciplinas importantes, como fisiologia, anatomia,
bioquímica, histologia, onde aconteciam aulas práticas com
vivissecação, e não precisou passar por esta experiência.

As aulas de anatomia, por exemplo, só utilizam cadáveres
humanos. “Não tivemos contato com animais em nenhum momento.
Fiquei sabendo há pouco tempo que outras faculdades usam
animais e achei isso horrível; a faculdade existe para formar
profissionais que vão ajudar pessoas e para isso não
precisamos maltratar outros seres, não seria ético; a gente
tem tanto direito à vida quanto eles (animais), não vejo
diferença”, diz a aluna.

Sua colega Bárbara Kipp, 22 anos, coordenadora-geral do
Diretório Central de Estudantes (DCE) da Ufrgs concorda.
Segundo ela, há outros métodos já bem desenvolvidos para se
aprender as técnicas médicas sem precisar recorrer à
vivissecação dos cães, coelhos e outros bichos. “Nunca usei
animais no curso e estou aprendendo muito bem; não me
sentiria à vontade se isso acontecesse e também não vejo
ninguém, nenhum colega, sentindo falta”, afirma Bárbara.

“Abolimos o uso de animais porque hoje não se precisa mais
disso”, destaca o diretor da Famed, o médico endocrinologista
Mauro Antônio Czepielewski. Não faltaram razões, pois havia
alunos que não concordavam com o sacrifício dos cães e outros
bichos nas aulas. Além da questão ética, a pressão das
entidades protetoras dos animais era cada vez maior, conta o
diretor.

Também estava cada vez mais difícil conseguir os animais para
servirem de cobaias, havendo ainda o problema de alojá-los e
depois descartá-los, após serem sacrificados. Por isso, este
procedimento vinha diminuindo ano á ano e quando foi abolido,
em 2007, cerca de cinco ou seis animais ainda eram retalhados
por semana nas mesas de cirurgia do curso.

Modelos artificiais

A mudança foi bastante discutida, e resultou na implantação
de um Laboratório de Técnica Operatória, que funciona apenas
com réplicas artificiais das partes do corpo humano, explica
o diretor. O projeto todo, com reforma de instalações e
aquisição dos modelos, importados, custou cerca de R$ 300
mil, com recursos da própria Ufrgs, Famed, Hospital de
Clínicas (o hospital universitário) e Promed, um programa do
Ministério da Saúde que incentiva mudanças nos currículos dos
cursos de medicina. (clique aqui para ver fotos)

O médico Geraldo Sidiomar Duarte, que deixou o cargo de
diretor do Departamento de Cirurgia no início do mês, foi o
responsável pela implantação do moderno laboratório. “Era uma
deficiência grave do curso (a técnica operatória), tínhamos
problemas para obter o animal, onde deixá-los, os cuidados
pós-operatórios e o Ministério Público e as entidades
protetoras vinham se manifestando, havia muitas objeções que
criaram um conjunto de dificuldades”, relata.

O trabalho era considerado insalubre e aconteciam muitos
acidentes biológicos (quando alunos se cortam
acidentalmente), com risco de infecção pelo sangue dos
animais. Agora, o local é totalmente asséptico, não se vê uma
gota de sangue no espaço de 120 metros quadrados. Duarte
mostra uma peça sintética que imita perfeitamente a pele
humana, inclusive na textura, onde os alunos podem fazer e
refazer várias vezes cortes superficiais ou profundos,
costuras e pontos. E os acidentes não acontecem mais, o risco
é zero, acrescenta.

Outra peça imita um intestino, a ser costurado. Numa mesa ao
lado, um tórax artificial permite o treino de punções em
vasos profundos, como uma imitação da veia jugular cuja
pulsação é possível sentir ao toque. Membros sintéticos
apresentam ferimentos diversos a serem tratados
cirurgicamente. O que parece ser apenas uma pequena caixa,
com uma cobertura da cor da pele, representa a cavidade
abdominal para a prática de cirurgia.

O médico e professor mostra catálogos com uma infinidade de
órgãos artificiais que podem ser adquiridos: “Há modelos
artificiais para todos os tipos de treinamento, pode-se
montar um laboratório gigantesco com eles”, diz
Duarte. “Estamos muito satisfeitos, e os alunos muito mais”,
completa.

“Isso qualificou enormemente os alunos”, reforça Mauro
Czepielewski, o diretor do curso. Ele acredita que esta é uma
tendência irreversível e que o emprego de modelos artificiais
acabará chegando a todas as faculdades de medicina, em
substituição aos animais. Diversos cursos, do Rio Grande do
Sul e de outros estados, já pediram informações sobre o
laboratório da Famed. “A consciência do não-uso de animais é
importante para fortalecer uma visão de valorização da vida”,
afirma.

O diretor apenas considera muito difícil substituir animais
na área de pesquisa, na pós-graduação. Mas garante que os
procedimentos, neste caso, seguem rigorosos requisitos do
Conselho Nacional de Ética em Pesquisa, com uso controlado e
número limitado dos animais que servem de cobaias.

Objeção de consciência

O debate ético sobre vivissecação ganhou impulso no Estado a
partir da atitude de um aluno do curso de Biologia, Róber
Bachinski, que ingressou na justiça, em 2007, para ser
dispensado das aulas que sacrificam animais, alegando objeção
de consciência. Chegou a ganhar uma liminar, mas ela foi
cassada, mediante recurso da Ufrgs, e o caso segue tramitando
no Judiciário.

Segundo ele, a abolição do uso de animais na Famed reflete
uma tendência mundial: “Ao abolir o uso de animais a Famed
mais uma vez demonstra a sua qualidade no ensino e o seu
avanço ético e metodológico. Espero que outras universidades
e cursos também sigam esse modelo e que esses métodos de
ensino sejam divulgados”.
Bachinski diz ainda que a abolição do uso de animais em
disciplinas da medicina comprova que é possível a sua
abolição em outros cursos com disciplinas equivalentes, como
na farmácia, educação física, psicologia, enfermagem,
biologia, veterinária. Na opinião do estudante, um novo
paradigma educacional precisa ser criado, levando em conta
não apenas o bem estar da sociedade e do aluno, mas também o
respeito aos direitos básicos dos outros animais.

EcoAgência - http://www.ecoagencia.com.br/